






Tantas vezes eu soltei foguete
Imaginando que você já vinha
Ficava cá no meu canto calada
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha
É como diz João Cabral de Mello Neto
Um galo sozinho não tece uma manhã
Senti na pele a mão do teu afeto
Quando escutei o canto de acauã
A brisa veio feito cana mole
Doce, me roubou um beijo
Flor de querer bem
Tanta lembrança este carinho trouxe
Um beijo vale pelo que contém



Cubra-me com seu manto de amor
Guarda-me na paz desse olhar
Cura-me as feridas e a dor me faz suportar
Que as pedras do meu caminho
Meus pés suportem pisar
Mesmo ferido de espinhos me ajude a passar
Se ficaram mágoas em mim
Mãe tira do meu coração
E aqueles que eu fiz sofrer, peço perdão
Se eu curvar meu corpo na dor
Me alivia o peso da cruz
Interceda por mim minha Mãe, junto a Jesus
Nossa Senhora me dê a mão
Cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me dê a mão
Cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino
Do meu caminho
Cuida de mim
Sempre que o meu pranto rolar
Ponha sobre mim suas mãos
Aumenta minha fé e acalma o meu coração
Grande é a procissão a pedir
A misericórdia, o perdão
A cura do corpo e pra alma, a salvação
Pobres pecadores oh Mãe
Tão necessitados de Vós
Santa Mãe de Deus, tem piedade de nós
De joelhos aos Vossos pés
Estendei a nós Vossas mãos
Rogai por todos, nós Vossos filhos, meus irmãos
Nossa Senhora me dê a mão
Cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino
Do meu caminho
Cuida de mim...



A antropóloga, inicialmente, apresenta o resultado do levantamento de dados em campo, com análises que constatam realidades, vivências e tendências. Mas os interessantes relatos colhidos de pessoas em estúdios de tatuagem na cidade do Rio de Janeiro, a partir do segundo tópico “Família, Estado, mercado de trabalho e tatuagem” e conseqüentes reflexões da autora transformam o texto metódico e científico em leitura prazerosa e bastante interessante também aos leigos, interessados na expressão corporal através da tatuagem e piercing. Entre outros estudos e pesquisas realizados sobre tatuagem na cidade do Rio de Janeiro, Andréa Osório publicou em 2006 a sua tese de doutorado pela IFCS–UFRJ: “O gênero da tatuagem – continuidade e novos usos relativos à prática na cidade do Rio de Janeiro”.
A Revista Tatuadores & Body Piercers on line, reporta mais este estudo da universidade que certamente aprimora nossa visão e compreensão sobre autonomia, corpo, individualismo e posse de si.
Abaixo postamos o início do artigo de Andréa Osório que traz o “Resumo” da pesquisa. Também postamos nesta página a última parte do texto com as “considerações finais” da autora, e por fim o link do arquivo em PDF, com o artigo completo. Vale à pena conferir todo o texto, na íntegra, com apenas 15 páginas, sem contar as referências bibliográficas com as quais a antropóloga trabalhou.
Doutora em Antropologia / UFRJ
Recebido em 10/02/2006
Aceito para publicação em 01/07/2006
em cadernos de campo, São Paulo, n. 14/15, p. 83-98, 2006
Pesquisa realizada em dois estúdios de tatuagem da cidade do Rio de Janeiro apontou para a predominância da prática na faixa etária dos 20 aos 29 anos. Cerca de 60% do público de um dos estúdios é formado por jovens entre 16 e 29 anos. Por trás da sedução que a tatuagem exerce sobre a juventude, parece estar um processo de marcação social – sobre o corpo – de autonomia pessoal, que foi nomeado na literatura dedicada ao estudo da tatuagem contemporânea como posse de si, conceito que remete à emergência de um processo de individualização, em que a tatuagem pode se apresentar como signo propício a uma prova pessoal (e social) de força e coragem ou como epíteto de uma rebelião silenciosa contra instâncias de controle do indivíduo, sobretudo a família.
“…”
Rompendo com um senso comum que pensa a tatuagem como um adorno corporal utilizado por indivíduos do sexo masculino participantes de grupos jovens, observei, em campo, que o público atual da prática é outro e que seu uso vai além do embelezamento. O universo da tatuagem, conforme indicado de forma rápida, é generificado, ou seja, constituído por separações entre os gêneros. Embora não haja uma separação análoga baseada nas categorias adulto e jovem, a geração e a faixa etária parecem apresentar distinções interessantes quanto aos usos. Entre estes usos, destaquei aqueles observados entre os jovens, mas não necessariamente exclusivos deles.
Foi apenas a partir de uma visão dada pelo trabalho de campo que se pôde constituir algumas das idéias aqui apresentadas. Em primeiro lugar, a tatuagem não é um adorno caracteristicamente jovem, mas é popular entre os jovens. Em segundo lugar, coube observar em que situações a juventude foi um fator associado à prática. A partir destes dois eixos, então, identifiquei casos em que a marca envolve a mudança de status e outras situações em que ela se apresenta em meio a um conceito ou tensão pelo poder de modificar o próprio corpo. Em ambos os casos, há um uso político do corpo acenando para as relações de poder existentes no cotidiano dos sujeitos. Estas relações são mantidas especialmente em duas esferas: na família e no mercado de trabalho.
Utilizando a restrição ao uso de piercings como um contraponto, indiquei como a permanência da marca nem sempre é a questão-chave quanto à interdição de seu uso. Em outras palavras, as restrições impostas aos adolescentes que querem um piercing parecem ser da mesma natureza que aquelas impostas sobre quem deseja uma tatuagem e é constrangido pelo poder público ou pela própria família. Na busca pelo direito à marca, então, os tatuados empreendem uma busca pelo poder de modificar seus corpos.
A autonomia sobre o corpo é uma autonomia sobre o indivíduo. Trata-se, portanto, de uma marca que, mais que um adorno, enseja uma reflexão sobre liberdade, controle e resistência.
Sobre os jovens observados em campo, está clara a relação entre maioridade e autonomia como causas de uma mudança de status. Entre outros jovens, possivelmente, a autonomia não é o fator determinante da aquisição da marca, com isso apontando para a autonomia como necessidade de alguns, não de todos, e para a tatuagem como processo que marca esta autonomia para alguns, mas não para todos. Existem múltiplos usos possíveis para a tatuagem, incluindo aqueles relativos ao embelezamento e à sedução.
Não coube tratar de cada um deles, mas indicar um caminho reflexivo para se compreender sua importância e seu uso entre os jovens. Os embates percebidos na aceitação ou não da tatuagem e no desejo por ela não são oriundos do próprio universo da tatuagem, mas reflexo da sociedade, das relações familiares e da inserção dos indivíduos no mercado de trabalho, seu imaginário e suas aspirações. Assim, o corpo e em especial a tatuagem permitem uma reflexão sobre instâncias de controle do indivíduo que são instâncias de controle corporal, bem como a relação que este indivíduo pode manter com tais instâncias. O corpo emerge como espaço de uma luta simbólica, política, por individualidade. Nesta luta, autonomia, originalidade, distinção, liberdade, controle e resistência são elementos constitutivos do processo experimentado: em alguns casos causa, em outros conseqüência do desejo de ser tatuado.
Arquivo para download com a íntegra do artigo de Andréa Osório: Andrea Osorio – tattoo e autonomia.pdf
